quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Silvestre Pessoa

"Era um cidadão comum como esses que se vê na rua
Falava de negócios, ria, via show de mulher nua
Vivia o dia e não o sol, a noite e não a lua"
(Belchior)

     Silvestre é um homem muito urbano. Não que ele seja gentil, simpático ou sociável, como se costuma querer dizer com este adjetivo. Muito pelo contrário, ele é urbano como são as grandes aglomerações urbanas de hoje em dia: frio, frenético e incansável.
     Sua rotina de trabalho inclui os três turnos. Às vezes, os quatro, quando ganha um extra com algum bico na madrugada. Mas não reclama. Quer dizer, reclamar não reclama, mesmo. Mas ninguém mais turrão e mal humorado jamais foi visto em qualquer um de seus ofícios. Não cumprimenta ninguém,
nem é muito dado a elogiar. Paciência, então, não é lá o seu forte, e, de modo algum, é feito de tolo. Jamais! Coitado de quem o tentar.
     Outro dia, seu patrão se enrolou, não se sabe se propositadamente, com as contas das horas extras do Sr. Silvestre Pessoa. Deu-lhe a metade do devido. Não sobrou pedra sobre pedra, claro. Silvestre mandou às favas a hierarquia, e o patrão aonde não posso dizer neste texto. Pediu respeito, bem a seu modo, e terminou chamando a atenção de todos os empregados da empresa onde trabalhava. Isto fez seu chefe se sentir humilhado e o resultado é óbvio: demissão.
     Silvestre não ficou na rua da amargura. Foi, na verdade, se oferecer para fazer horas extras em seu outro emprego. Mas, seu orçamento sofreu um considerável baque. Era o seu melhor emprego. Mas já era! Tocou para frente, dinâmico, incansável, como sempre. E frio. Não tinha uma namorada, sequer. Nunca teve. E não é que fosse feio, ou que preferisse rapazes. Era lindo. No entanto, sua carranca sempre armada afugentava as garotas. E era hetero, mas nem as prostitutas, a quem pagava bem, aguentavam uma segunda vez. Era, na verdade, até pior que pagasse bem. Sentia-se dono delas.
     Seus colegas sempre tentam teorizar sobre seu comportamento. Normalmente, algum trauma é cogitado. Um pai que lhe batia, uma mãe que não lhe amava, um amor não correspondido, uma viuvez ou um filho perdido. Balela! Sua vida não fora sempre perfeita, é verdade. Mas nada tivera de extraordinário, que lhe pudesse ter feito tão mal. A verdade verdadeira é que sempre fora assim. Não há explicação aparente. A grande prova de que não foi sua vida ou criação é o seu próprio irmão, o Simplício. Não há no mundo alguém mais tranquilo que o Simplício, embora ele padeça de seus próprios problemas.
     As notícias que dele tive, recentemente, são de que foi readmitido no seu antigo emprego. Era o melhor e mais produtivo funcionário, apesar de isolado e tão pouco sociável. Enquanto ele trabalhar com tanto afinco, poderá seguir sem perder o emprego. E ir para a cama com a sensação de missão cumprida, ao menos por um dia.
     E segue sua vida mais que urbanamente, Silvestre Pessoa. Segue-a Metropolitanamente, esta pessoa nada silvestre, este Silvestre pouco pessoa.

Pablo de Araújo Gomes, 20 de janeiro de 2010