sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Tarcia Danielle

"Como eu poderia esquececer do poeta das estrelas? Daquele que diz amar o mundo a cada página? Amá-lo é como andar numa montanha russa em zigue-zague... Fazê-lo sorrir é mais gratificante que ver o dia amanhecer. Ficaria a eternidade entre as sombras que fazem as suas mãos ao tocar um OBJETO, nada mais... O que eu não daria para estar entre os seus mais profundos desejos? Para saber que um dia ele suspirou por mim"
Tarcia Danielle


     Ele estava quieto, na dele. Na verdade, aquele violão apoiado em seu colo estava quase como abandonado, enquanto ele retocava as notas de sua nova composição. Aquele adolescente, que não tinha exatamente o hábito de ser sempre discreto, possivelmente, naquele preciso instante, poderia passar despercebido, de tão concentrado que estava. Pelo menos, conforme sua percepção, já que todo o seu universo se limitava a uma melodia inacabada, e uma letra de música que merecia ser retocada.
     Mas o silêncio havia de ser quebrado, por uma voz feminina a chamá-lo.
     - Pablo, me dá um presente de dia dos namorados!
     Aquele pedido - naquele momento ele não teve presença de espírito para compreender, mas suponho ter ele sentido o que sentiu o aviador de Saint-Exupéry, quando abordado pelo pequeno príncipe - o despertou de seu intrincado quebra-cabeças pessoal. Assim que pôde se situar e articular as idéias, não conseguiu, senão perguntar:
     - Desculpa, mas, você me conhece de onde?

     - Quem, nesse colégio, não te conhece???
     Diante daquela constatação, e, pior, da obviedade de tal constatação que ele nunca tivera, só lhe coube ficar mais uma vez atônito.
     - Mas, você me dá um presente de Dia dos Namorados?
     O que dizer? Ele nunca a havia visto, antes. Ou já? Não, não. Sentia-se impotente diante de uma fama que repentinamente descobrira, e que nunca mais esqueceria. Mas tinha que responder algo. Pensou em alegar ciúmes de sua namorada; mas, é claro, não tinha namorada. Havia anos, aliás, que não tinha mais que amores inteiramente platônicos e, a esta altura da adolescência, não beijava sem amor, o coitado.
     - Mas você quer que eu seja seu namorado? Quer dizer, você quer namorar comigo?
     - Não, eu só quero o presente, mesmo, pra ganhar alguma coisa esse ano...
     Alguém que estava ou passava por perto exclamou um "vixe!", ou algo semelhante, mas ele mal reparou, hipnotizado que estava com esta situação.
     - Ainda bem... eu bem que não gosto da minha atual condição de solteiro, mas, se há uma coisa boa em não ter namorada, é que eu não tenho dinheiro para dar um presente de dia dos namorados.
     E, com esta resposta emboloada, o jovem julgava ter se livrado do problema e...
     - Mas eu sei que você escreve, e que escreve muito bem. Eu aceito um poema, como presente.
     É, caros amigos. Ela não desistira. E ela não desistiria. "Mas eu não sei nem seu nome", "Tarcia Danielle, prazer!", "Mas eu não te conheço!", "Hoje é dia 7, ainda. Temos quase uma semana até o dia 12, dá tempo", "Faço, mas só se você escrever um para mim, também!", "Não tem problema, eu faço." "Mas, mas... tá bem, eu topo o desafio.". Foi vencido pelo cansaço. "E como eu faço para te entregar o presente?", "Deixa, que eu te encontro!"
     Ela simplesmente virou as costas e foi embora.
     Tudo bem, há que se admitir que, com aquela abordagem ousada e destemida, a garota conquistara a sua atenção. E o seu respeito. O jovem rapaz admirava, e até hoje admira, mulheres de iniciativa, mulheres de atitude. Mas ele não fazia idéia do que fazer.
     Tarcia, nos dias seguintes, apresentou-se melhor. Ano escolar, gostos, desgostos, etc. Ela já escrevia, também, há algum tempo. Ótimo! O rapaz finalmente viu uma oportunidade de conhecê-la melhor, sem ser por suas palavras. Ele adorava ler poemas, e naquele momento percebeu que era a melhor maneira de descobri-la como ela, provavelmente, jamais contaria que era.
     E ele gostou do que viu. Ela se parecia muito com ele, inclusive, seu modo incipiente de escrever, carente de um amadurecimento literário, mas muito genuíno. Ele não racionalizou isso na época, claro, mas sentiu, posso-lhes assegurar.


     Alguns dias de convívio, alguns poemas lidos em seu diário, e ele finalmente pôde concatenar algumas idéias. Fez-lhe um poema simples. Quase simplório, mas de coração. Teve direito até a um acróstico... Tarcia Danielle, cada letra encabeçando um verso, cada nome uma estrofe. Nem profético, nem equivocado, denominou a garota como sua "mais nova eterna amiga".
     Em verdade, estas últimas palavras do último verso foram sinceras, mas desnecessárias. Eram um artifício. Ele ainda temia, secretamente, que aquela nova amiga visse no poema algo com que alimentasse um eventual sentimento por ele, a que ele, perdido de amores que estava por uma outra garota, não corresponderia. Amiga, bem destacado, eternamente amiga, e não mais que isso. Quando ela apareceu para receber - era sempre ela que o localizava quando bem entendia -, "E aí, você já fez?", "Está aqui, comigo", "Lê pra mim", "Na-não. Você lê, eu observo", "Vai, lê pra mim!", "Não, eu quero ver sua reação, lendo", "Leia!", "Tá bem, tá bem...", ele leu, ela gostou... ele ficou até sem graça, com como ela gostou do poema. Sentiu-se um pouco responsável, ou irresponsável. Ela o abraçou, agradeceu, e, sem mais, saiu da sala!
     Poucos dias depois, ela voltou com o seu. Fazia parte do combinado. Ela o fizera ler o seu para ela, ele o faria a ela, também. Ela leu, pela primeira vez envergonhada diante dele. Abraçaram-se. Entreolharam-se. Calaram-se...
     Despediram-se.


     Mas, a vida lhes deu umas férias. Na verdade, o colégio...
     O quê? Você queria mais, cara leitora? E você, leitor? Não, não! Esta é uma história real, não uma novela da Globo ou filme de Hollywood! Você está muito mal acostumado.
     Retomando. O rapaz, longe dali, teve uma grande desilusão, nas tais férias. Isso mudou muito o seu modo de ver o mundo, enfim... para que detalhes? O que importa é que ele voltou mudado. Após a agitação da volta às aulas, algo diferente aconteceu.
     Era um dia de sol - detalhe que não vem ao caso, porque estavam dentro de uma quadra poliesportiva, perfeitamente coberta -, em um evento escolar conhecido por muitos como "Feira de Ciências". Aquele dia costumava ser o terror de muitos alunos, mas o jovem rapaz adorava. O que importa é que ele a encontrou, e foi como se não se vissem havia meses. Na verdade, havia meses, sim. E era a primeira vez que ele a encontrava, e não o contrário. Ele invadiu o seu estande, para abraçá-la, e terminou não saindo de lá. Sentaram-se para conversar, distante dos olhares alheios - hoje, ele desconfia que este detalhe foi intencional, da parte dela - e... e... vocês sabem... naquele dado momento em que a conversa congela, os olhares se encontram e as mãos suadas não sabem o que fazer, só pode acontecer o que vocês tanto esperavam: um beijo.
     Aliás, que sem graça!
     Não, não o beijo! O beijo foi maravilhoso! Pelo menos, ele achou... Ela, ninguém sabe. Sem graça, foi o seguinte: um amigo tinha que entrar no estande justo naquele momento? Ele se recusou a comentar, pelo menos foi esse o seu único comentário, antes que ele saísse, assustado.
     Aquilo lá durou um tempo indefinido. Deve ter sido a tarde toda. Ou quinze minutos, talvez. Pareceu uma doce eternidade, até a despedida interminavelmente melosa, que se estenderia por muitos minutos e beijinhos...


     Mas, a vida real não é tão doce quanto a ficção. Ele adorou, mas ficou realmente confuso. Seu amor era desiludido, ele não esperava mais pela amada, e não queria mais. Estava de peito aberto. Mas receava que somente Tarcia terminasse se apaixonando, e não ele. Chamou-a para uma conversa.
     Nervoso - e com algumas boas amigas, enxeridas, na tocaia, torcendo por um resultado mais romântico - ele a encontrou para conversar. Acho que nem se beijaram, de nervoso que ele estava. Ou deram um "selinho", no máximo.
     Coração acelerado.
     Ele começou a falar, contar toda a história. Ela já sabia de tudo, a danada, mas nada disse. Ele estava de peito aberto, e desarmado. Ela já estava muito bem informada, preparada para o pior. Ele apresentou seus receios, e antes que perguntasse se, naquelas condições, ela o namoraria, "Tudo bem, eu também não estou apaixonada!". Silêncio. "Sério? Que bom... quer dizer, a gente pode...", "Não tem problema, a gente não precisa namorar, se você está tão confuso", "É...". Suspiros, em uníssono. Não era o que ele queria, mas parecia o melhor. Os dois concordaram. Faltou o que conversar. Deram um último beijo, só para encerrar. E um abraço bem apertado. Seguiram seus rumos, sem uma lágrima. Pelo menos em público.


     Ela não apareceu mais. Ele não conseguiu mais encontrá-la, e achou que ela poderia o estar evitando. Ela se perguntava por que ele não falava mais com ela. Ele lamentou, mas se conformou que ela quisesse um momento para ela. Acabara. Fim.




Epílogo:
     Não, a vida sempre continua. Mas, vou logo avisando, não crie expectativas. Se viram uma vez, muitos anos depois, mas nem dá para considerar: muitas expectativas, poucos segundos, frustração geral... Ela foi para Fortaleza, casou, separou... São bons amigos virtuais, sabem mais, hoje, de tudo o que se passou, do que sabiam antes. Conhecem as angústias e motivações um do outro, em cada momento da história. Concordam que é uma ótima história para recordar. E é isso que acabo de fazer.
     Obrigado por tudo, mais do que nunca, minha eterna amiga!


Pablo de Araújo Gomes, 8 de janeiro de 2010
(com colaboração intensa de Tarcia Danielle Brilhante Pereira,
que não aceitou assinar como co-autora)