sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Altruísmo Cego e o Consciente

     Caridade.
     A Idade Média e a Igreja Católica (conceitos que quase se confundiam) eternizaram esta palavra como uma das mais importantes e seguras portas para a salvação de sua alma. E, falando em espírito, muitos dos espiritualismos, inclusive sua mais completa e ilustre vertente (nada contra as outras correntes), o Espiritismo (de Allan Kardec) também valorizam a caridade como uma parte importante do caminho rumo à iluminação espiritual.
     Hão de me perdoar os certinhos e os moralistas, mas acho que supervalorizam a caridade. Não, não sou o anti-Cristo! Não me venham crucificar, por favor! Eu disse que a caridade é supervalorizada, e é mesmo. Não disse que é ruim. Eu também a acho importante, e a pratico, se acaso vocês duvidam que eu a ache positiva. Isso, apesar de crer que muitos fazem um pequeno gesto de caridade, a boa ação do dia, apenas para ficar de consciência tranquila, e se eximir do dever de fazer algo realmente significativo que lhes dê mais trabalho. Não, não resistam às idéias que lhes trago. Leiam-me, e entenderão o que lhes digo.

     Permitam-me fazer algumas citações: o Rei do Baião, grande mestre Gonzagão, já dizia "A esmola mata de vergonha, ou vicia o cidadão". Dispensaria comentários, só de se bem observar nas esquinas e semáforos de sua cidade. Mas, como reforço, lembro-lhes de Antoine de Saint-Exupéry, que fala, em uma obra sua de cujo título não consigo me lembrar, daqueles mendigos que expõem as suas chagas, para demonstrar que não têm como trabalhar, e que precisam de uma ajuda para se curar; mendigos esses que, no fim do dia, futucam suas feridas, e até lhes esfregam todo tipo de sujidade, para não perder sua fonte de renda.
     Enquanto isso, a sabedoria popular ensina que é melhor ensinar a pescar do que simplesmente dar o peixe. Sobre isso, permitam-me lembrar que os comunistas de última hora há muito dizem: "Dar esmola atrasa a revolução!". Sim, é verdade. Sob a ótica de quem espera que o miserável, não suportando a miséria, faça a revolução, dar-lhe esmolas o coloca em uma situação de conforto, na qual, ainda que na miséria, não se tem com o que se revoltar. Muito sábia colocação! Parando de se dar a esmola, o sopão, o peixe, o pão, o miserável sai da zona de conforto, de dependência, e vai atrás do trabalho, ou se organiza com seus iguais para virar o jogo através da revolução! Ingênuo, não? Também acho, mas devo admitir que é bonito! Porém, não creio, também, que, sem nada para comer, na mais completa miséria, se possa pensar em algo mais do que a própria sobrevivência, quando muito na das crias. Sim, o bicho-gente também é animal! Então, não podemos abandonar por completo a caridade, mas temos que ter cuidado com a esmola. Esmola não é caridade, é veneno! E nem sempre dar esmola é dar uns trocadinhos, há muitas maneiras de se cometer este crime social. Há muitas outras citações, algumas bastante interessantes, mas, assim, não escrevo hoje!
     Então, colocando as idéias esparsas em ordem, eu diria: é preciso eliminar a dependência, ensinando a pescar, não deixando, no entanto, que o aprendiz fique sem comer até o dia de sua "formatura" como pescador. Mas, tão logo aprenda, e tenha onde pescar (detalhe importante, como discorreremos), não se pode manter a ajuda, sob pena de provocar o vício da acomodação.
     Certo. Mas, ainda assim, subsiste uma dúvida: como ser solidário? Devemos esperar emergências, como estes terremotos no Haiti, ou  aquelas tsunamis de poucos anos atrás, na oceania? Por óbvio que devemos contribuir, e rápido, mas não. Não é a única maneira de agir. Há muito o que se fazer, por aqui, e já!
     Acontece que, como vimos, dar esmolas a  uma criança, no sinal, estimula que ela jamais tente, quando crescer, outra renda que lhe dê mais trabalho; comprar aqueles confeitinhos ou canetas, pior ainda, porque estimula a exploração infantil! Ou vocês realmente acreditam que aquela pobre criança (pobre, mesmo!) vai ver a cor do seu rico dinheirinho? Nem sonhem! Muito mais efetivo é procurar uma instituição séria, e acompanhar os trabalhos. Dar dinheiro à instituição? Pode ser, se você conhece e ela presta contas direitinho. Afinal, dinheiro também é necessário, e muito, para se manter funcionando. Mas, se você é bom com crianças, por que não passar o dia recreando crianças carentes? Ou uma tarde conversando com algum(a) senhor(a), num asilo, onde muitos são abandonados pela família e passam anos esquecidos, em sua infinita solidão. Ou, quem sabe, visitar um bom hospital do câncer e dar força a um paciente terminal, ou divertir uma criança; quem sabe abraçar um paciente com hanseníase (desde, claro, que esteja sendo tratado, sem risco de contaminação), após alguns minutos de boa conversação sobre frivolidades. Você não faz idéia da força que isso tem. Ou doar sangue, se sua saúde permite. E, se for doar algo a alguma família carente, que tal conversar com os membros desta família? Não são apenas receptáculos de sua boa-vontade: SÃO PESSOAS! Não posso lhes dizer que já fiz tudo isso, seria mentira. Mas já fiz alguns, e pretendo repetir a dose. Outros, faço-os com regularidade.
     Parece-lhes que já falamos tudo? Se sim, o seu equívoco é grande!
     Vamos imaginar uma situação hipotética: você acompanha uma boa instituição, que realiza a nobre obra de tirar crianças das ruas, e do risco iminente de caírem no mundo das drogas e/ou do crime. Ótimo! Isso jamais será pouco! E, jamais, será suficiente, também. É preciso que, ao crescer, e não mais poder ser atendida pela instituição, este novo adulto possa não ser apenas mais um miserável nas ruas. Aliás, esta cena é bastante comum, bem mais do que você pensa. "Nós até queríamos ajudá-lo mais, mas você já é bem grandinho. Te vira!", "Mas eu não tenho trabalho, nem onde morar...". Com sorte, a instituição terá ensinado o jovem a pescar, e, com sorte, tome-lhe a vara! Vá pescar por conta própria! "Mas este canal não tem peixe!", "Sinto muito, mas não podemos fazer nada por você". Infelizmente, na maioria dos casos, este jovem jamais teve uma formação semelhante à de uma criança da classe média. Às vezes, não passa nem longe disso. E, hoje, até para quem tem boa formação, tudo poderá ser bastante difícil.
     Bem, chega de pessimismo! Queremos solução. Com um pouco mais de dinheiro, uma poder-se-ia criar um projeto menos pontual, mais amplo, que reestruturasse a comunidade, orientasse os adultos a formarem cooperativas de acordo com a vocação econômica local, a se organizarem, a progredirem, que facilitasse o crédito para a realização deste investimento. Deste modo, aquelas crianças se sentiriam inspiradas a, na medida em que crescessem, seguir o exemplo dos pais, tios ou conhecidos. Não seria mais esmola, não seria mais somente ensinar a pescar, num rio sem peixe. Seria dar semente, terra e orientação, e dizer: plante, que, em se cuidando, fruto dá!
     Ah, você não tem esse dinheiro? Realmente, criar instituições como esta, com tal estrutura, depende de mais dinheiro do que para fundar uma ONG (Organização Não Governamental, entidade sem fins lucrativos que objetiva um bem social) qualquer. Pior, muitas empresas ou multimilionários têm acesso a idéias e projetos semelhantes, mas contentam-se em engavetar. Muito triste, não? Mas não tem que ser o fim do mundo, não! Por que as ONGs, e demais instituições que atendem um determinado município ou uma comunidade, não firmam parcerias para um trabalho mais coordenado e eficiente? Isso está ao alcance de muitas delas. É difícil? Claro! Realizar trabalho social é difícil, lidar com pessoas é difícil, e não deixam de fazê-lo, por isso.
     O Homem (raça humana) produz e extrai mais do que realmente necessita. E desperdiça (ou acumula, graças à lógica capitalista) grande parte de tal produção, inutilizando-a, enquanto grande parte da população humana, paradoxalmente, passa fome e toda sorte de privações, em pleno século XXI. A verdadeira solução para resolver este problema, ou pelo menos minimizá-lo, não é a caridade, como muitos pensam. Enquanto pensarmos nisso, não funcionará. A caridade é um paliativo, um assopro na ferida. A solução está na cooperação, no mutualismo. Mas isso é visto como coisa de comunista, de anarquista, ou de qualquer outra corrente filosófico-social que não recebe o devido crédito por culpa do preconceito. Sopra-nos, então, assoprar as feridas, na ilusão de que isso, por si só, vá fazer mais do que aliviar o incômodo da eterna chaga.

Pablo de Araújo Gomes, 15 de janeiro de 2010