sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Complexo Simplício

     Seu nome é Simplício Pessoa. Para os que o conhecem, isto é uma piada. Simplício é boa gente, uma pessoa tranquila como ninguém. Mas, de simples, não tem nada! Ele não se incomoda com isso, claro. Não se incomoda com nada - o dalai lama se irritaria mais facilmente do que Simplício Pessoa. Habilidade, que talvez tenha aprendido ao conviver com o seu irmão gêmeo, o Silvestre. Mas aguardar que ele tome qualquer decisão pode ser um verdadeiro suplício. Jamais faça isso, sobretudo se tiver pressa! Não permita que ele tenha duas ou mais opções, pois ele não decidirá enquanto não houver realizado uma completa análise de cada mínima variável ou fator envolvido. E ele não estará nem aí para a sua pressa. Ele não conhece o significado da palavra aborrecimento.

     Você pode até duvidar, mas Simplício se gaba de fazer sempre a escolha certa. Também, pudera. Pensando tanto, assim, dói fazer a escolha errada. Às vezes, no entanto, o preço parece alto. Sua última decisão foi tomada sob a pressão e os olhares incrédulos de sua mais recente namorada. Ela impôs a sua sentença: "Ou o cigarro, ou eu!". E ainda se aborreceu, como se não conhecesse o Simplício. É claro que ele demorou uma eternidade para responder, e cada minuto a fez avermelhar-se mais de raiva. Quando ela estava já roxa, ele ofereceu o seu veredicto: se ela quisesse fazê-lo parar de fumar para o bem dele, ou seja, pensando nele, é porque o amava, e não o deixaria, no caso de ele não parar de fumar; já se a tentativa fosse para satisfazer alguma necessidade pessoal, ou, pior, ao próprio ego, ela não mereceria tal sacrifício. Em outras palavras, disse-lhe que não poderia largar o cigarro por uma pessoa que se declarava disposta a abandoná-lo.

     Tudo bem, Simplício. Certo, mais uma vez. Mas, ela o largou, sem mais, após deduzir que ele optara pelo cigarro. Mas o seu argumento não afirmava que ele continuaria fumando. Enquanto ponderava, percebeu que fumar não tinha sido uma decisão, mas uma imposição que lhe haviam feito na juventude. Ele, como sempre que pensa, tomou a decisão acertada: largou o cigarro, e nunca mais fumou. A namorada? Ela bem que quis voltar, mas ele viu que, como ele suspeitava, ela não o queria tanto quanto ele achava que merecia ser querido. Nem se aborreceu.

     A vida para Simplício é assim. Uma constante partida de xadrez. Você sacrifica a rainha para salvar o seu rei, e faz um xeque-mate com o peão. Cada escolha tem um fundamento, e nada é simples, nem óbvio. Pense bem, sem se deixar levar pela emoção, e você fará a escolha certa. Este é o lema do complexo Simplício.


Pablo de Araújo Gomes, 20 de Janeiro de 2010