sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Crônica Atravessada

     Enviaram-me uma breve provocação, citando um estudioso francês que muito teria se interessado pela literatura eminentemente brasileira. O pedido para que eu me pronunciasse a respeito me pareceu bastante digno de atenção. O que não sei é se minha pronúncia será digna da solicitação...

     É bem verdade. Ferdinand Denis apaixonou-se pelo Brasil, em uma viagem que fez à América do Sul, e passou a se interessar por tudo o que se relacionava com nosso país. Por mais de sessenta anos, para se ter idéia, escreveu inúmeros títulos, incansavelmente, sobre o nosso país.

     Ferdinand nasceu em fins do século XVIII, exatamente na época do ano em que o então jovem general Napoleão Bonaparte investia contra o Egito e vencia a lendária Batalha das Pirâmides. Em outras palavras, a Revolução Francesa estava se consolidando, com o controle dos conflitos internos e das guerras em que a França estava envolvida. Isto, logo após o período conhecido como o Século das Luzes, que teve fim nove anos antes, com o início da própria revolução. Conforme deveria acontecer, ele foi um homem de seu tempo, afinado com as mais avançadas teorias da sua época. Da sua época, eu disse. Há muita coisa, que, há muito tempo, já foi desbancada.

     Mas vamos por partes, como nos ensina o método. Ferdinand Denis de fato registrou muita coisa, não apenas sobre nossa literatura, como sobre nossa história, costumes, e sobre a nossa gente. Livros didáticos por ele escritos (lá, da França) foram adotados aqui em nossas escolas, durante o Segundo Império. Recebeu duas comendas imperiais por sua contribuição ao estudo da história e cultura brasileiras. E jamais vou desbotar seus méritos. Ele era realmente apaixonado pelo Brasil, e muito bem intencionado. Mas, estava enganado em muito do que disse.

     A começar com as teorias sobre as qual se fundava seu pensamento. A primeira, a Teoria dos Climas, de Montesquieu, foi, por definitivo, superada, no século XX. O Sociólogo Pierre Bordieu foi um dos que demonstraram que era mais um mito revestido de caráter científico, como tantos outros.

     E nem precisávamos esperar tanto, se usássemos a lógica. A Teoria dos Climas propugna, em resumo, o seguinte: que os povos do hemisfério norte do planeta terra, por viver em clima temperado, habitualmente mais frio, força mais freqüentemente a contração dos músculos (por conta do próprio frio), e assim se gera um caráter mais disposto e trabalhador; ao passo que os habitantes do hemisfério sul, por viverem predominantemente entre os trópicos, num clima mais quente, crescem relaxados, lentos e preguiçosos, formando-se um caráter claramente indolente. O que há de errado nesta teoria? Comecemos do começo: onde estiveram as primeiras grandes civilizações? No crescente fértil. Onde fica o crescente fértil? Nos pólos? Tudo bem, que apenas o Alto Egito ficava entre os trópicos, mas, ninguém pode dizer que qualquer das primeiras grandes civilizações estivesse sob clima fresco e ameno. Egito, Mesopotâmia e os demais povoados desta região, passando pela área da Palestina, viviam em oásis, o que é certo. Mas, por definição, Oásis ficam no meio do deserto. Era quente. E a disciplina invejável e incansável dos orientais também é presente entre os trópicos, não apenas na região temperada. A suposta indolência é muito mais cultural e de índole. Ou pretende me dizer que não há playboys na Europa? No mais, estou louco por uma oportunidade de ler os escritos de Bordieu, para saber como ele desmanchou esta teoria tosca que ajudou a fundamentar inúmeros preconceitos no decorrer da história.

     Denis também defendia o uso do índio como meio de termos os nossos próprios heróis nacionais. Mas, parecia indiferente ao fato de que o índio de nossa literatura não era um índio, mas um cavaleiro medieval travestido de índio. Isto, na realidade, jamais valorizou o índio, de verdade, porque não era o nosso índio quem tinha aqueles valores. No fundo, tanto endeusar como demonizar termina fazendo mal, de alguma maneira.

     Ele defendia, também, que, devido à natureza preguiçosa e indolente do povo brasileiro, nossa produção literária deveria investir mais em descrições, porque nos exigiria menos esforço. E, como a natureza e as cores dos trópicos são exóticas e exuberantes, esta seria, também, a melhor maneira de se prender a atenção dos leitores europeus.

     Ora, que se dane a suposta natureza preguiçosa e indolente! O brasileiro tem essa fama, não é? Mas, pesquisas da Organização Internacional do Trabalho indicam que o povo brasileiro, entre os Estados Democráticos de Direito, é um dos que mais trabalha, no mundo. No japão, antes de a crise internacional expulsar os brasileiros de lá, nossos conterrâneos eram os prediletos das empresas. Não é que o japonês nato não trabalhasse. Sair mais cedo é uma vergonha, então, eles fazem serão até mais tarde, tomando um cafezinho, ou um chá, e conversando. O serão do brasileiro é trabalhando.

     E, se a capacidade intelectual do brasileiro não fosse boa, mesmo, não teríamos inúmeros profissionais de referência no Vale do Silício, ou na NASA, por exemplo. Nossas mentes brilhantes evadem-se de sua pátria, como que despidos de qualquer sentimento nacional, mas porque as melhores oportunidades ainda estão no exterior. Se assim não fosse, e nossa educação efetivamente contribuísse para o aproveitamento dos talentos que despontam em nosso país - não o digo por patriotismo, que não é o meu forte -, com certeza, o Brasil teria um destaque maior no mundo. Aliás, isto vale para o Brasil, e para os países africanos, também. E os países pobres da Ásia, ou nossos vizinhos das américas. Por que Cuba se destaca em tantas modalidades? Saúde, educação, literatura, música, etc. Primeiro, porque valorizam sua educação. Segundo, porque fecharam as portas para a evasão de divisas intelectuais. Não estou concordando com os métodos de Cuba ao falar do fechar as portas como vantagem. Mas, não se pode negar que, para a coletividade, a medida ajuda, e muito, o país.

     E, tem mais. Não temos que agradar o público europeu, ou qualquer outro, para sermos bons. Nosso aprimoramento, o lapidar de nossa arte deve ser feito sobre nossas características próprias, agradar a nós mesmos, como público. Não proponho que nos fechemos, ou que não deixemos vir de fora, ou sair o que é nosso. Mas, como poderemos fazer algo genuinamente nosso, se obedecemos a padrões e opiniões alienígenas? Não. Influência de fora é possível, porque cultura e estímulos externos enriquecem a capacidade criativa. Mas, se você tem uma cultura própria, e ela lhe agrada, use-a. No Brasil, há uma cultura riquíssima que muito tem se perdido, que é a dos bons e velhos contadores de estórias. Isto é uma arte, e é narrativo, não descritivo. Na formação de nosso país, também, vieram muitos poetas medievais, e seus descendentes, isolados em regiões afastadas ou até inóspitas, eternizaram o gênero de seus antepassados. Tudo isso e muito mais compõe a riqueza e o caminho das pedras que nos pode conferir alguma identidade. Se fizermos bem feito, terminaremos por atrair os olhos do mundo, de qualquer maneira. E será muito melhor, porque agradaremos com algo nosso, e não por tentar agradar.

     Mas, nem tudo são espinhos. Denis também afirmava que o povo brasileiro é muito criativo. Ele já via isto naqueles tempos, e é algo que nós não perdemos. Não é bem por ser algo elogioso, mas admito que ele acertou. Como disse, ele estava enganado sobre muitas coisas. Mas não foi à toa que ele se apaixonou.


Pablo de Araújo Gomes, 19 de fevereiro de 2010