sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Inferno de Cada Um - II

     - AAAAAAAAAAAHHH!!
     Ouviu-se aquele grito ecoar por segundos, ainda, após ser proferido. E aquele grito de desespero não cessou, internamente, quando ela perdeu o restinho de seu fôlego. O que seria aquilo? Sentiu-se uma monstra, ao olhar no espelho. Que coisa horrível! Horrenda! Era... era... uma espinha!
     Procurou, inutilmente, o seu creme para espinhas, mas não o encontrou. Tentou espremer aquela medonha -e nojenta - bola de pus, não importava o quanto lhe doesse. E doeu. Doeria ainda mais se fosse vista daquele jeito. Mas não é possível! Quanto mais ela mexia, mais a espinha crescia. Num dado momento, crescera tanto, tão vermelha e inchada, que sua pele não pôde suportar a pressão. Estourou. Ela conseguira o que queria. Estava nojento, todo aquele pus, mas ela o lavava, e...
     - AAAAAAAAAAAAAHHHH!!
     No lugar da espinha, havia outra. igualzinha àquela. Só podia ser um pesadelo! Gabava-se de nunca ter tido espinhas, mesmo durante os piores momentos da puberdade e adolescência. Já distratara colegas feias, ou as belas que se surpreendiam com espinhas "horrendas" na face. Não que as tenha tratado mal, de fato, mas o seu ar de superioridade era notável e irritante. Ela sabia que era a garota mais bela, aonde quer que fosse, e os meninos sempre babavam por ela. Inclusive os mais belos.
     Mas, agora se sentia uma criatura mítica, um ogro, talvez! AQUELA espinha era a maior e mais horrenda que já vira. em toda a vida. Tinha que sair do banheiro. Resolveu ligar para a farmácia. Pôs a mão no rosto, com vergonha não se sabe de quem, e saiu pela porta do banheiro.
     Estaria ela enlouquecendo? Cruzando o portal, ela voltava ao banheiro, como se viesse de fora. Voltou, e percebeu que entrava, novamente, no banheiro. Voltou, e não saía do banheiro, como houvesse um banheiro idêntico ao seu, de cada lado da porta. Ela choraria de desespero, se não soubesse que isto a envelhecia tanto.
     Respirou fundo. Resolveu dar continuidade ao seu ritual diário de beleza. Cremes, massagens faciais, tudo precisava ser feito, ainda. Pegou seu creme anti-envelhecimento. Aquele era o seu predileto. Milagroso, e combatia seu maior terror, desde que entrou para a terrível e temida casa dos trinta e poucos anos. Aplicou, cuidadosamente, fechando os olhos, para tentar abstrair a inconveniente espinha. Mas, algo estranho quis lhe abrir os olhos. A textura de sua pele mudara e, ela resistiu a abri-los. Para seu total pânico os olhos denunciaram seu mais triste pesadelo. Ressoou mais um grito de desespero.
     Onde ela houvera passado o creme, sua pele envelhecera décadas, em segundos. Enrugara a pele, ressecara a tez de sua bela face. Não pareceria mais nova de que a sua própria avó, com mais de oitenta anos de idade. Idade, aliás, que dispensava alcançar, se porventura não pudesse evitar a aparência que tomava por degenerada. Não podia piorar. Não havia como.
     Mas, piorou! No lugar da espinha, o pior estigma da feiúra. O maior terror de seus pesadelos mais íntimos, a única coisa que seria capaz de superar uma espinha: uma grande e destacada verruga! Era, definitivamente, pior do que a morte! E tinha, até, cabelo! tentou arrancar o cabelo com a pinça. Pegou uma lâmina, para removê-la, mas temeu que lhe acontecesse algo pior à sua face, já deformada.
     Pensou, novamente, no que pensara anteriormente. Era pior do que a morte. Sim, era isso! Percebeu que este pensamento não lhe viera à toa. Compreendia, então, que tudo só poderia ser um castigo. Olhou para a porta do banheiro, e finalmente viu o seu quarto, apinhado de gente. Não teve coragem de cruzar a porta, embora sentisse que poderia sair do quarto. O seu temor era ser vista pelos presentes, naquele estado.
     O que tanto fotografavam, aqueles jornalistas intrometidos? O que poderia haver de tão interessante em sua cama? Algum comentou, jocosamente, que poderiam vender as imagens para Hollywood, para os filmes de terror voltarem a assustar alguém. Outro o sensurava, porque não estariam em local ou ocasião para brincadeiras. Não haveria ocasião mais inconveniente, mesmo. Ela pedira por aquele triste fim, mas, após a morte, merecia um pingo de respeito que se lhe pudesse dar.
     Ela não resistiu. Cobriu a face, e entrou no quarto, onde viu que, realmente, havia algo sobre a cama. Abafou um grito, para não chamar atenção para si, ao reconhecer sua camisola rasgada, que exibia um corpo deformado sobre a cama. Havia alguém, cuja identidade resistia em reconhecer, ou aceitar a identidade que lhe atribuía. Mas não podia mentir para si, mesma. Começava a entender. Ninguém a veria, simplesmente, porque ela não estava ali. Estava morta. E, muito pior do que ela, estava o seu corpo, sobre a cama, o corpo deformado, a face disforme, irreconhecível, realmente dignos de filmes de terror. Ouvia aqui e ali. Houvera sido vítima de um crime passional.
     Sabia que não deveria ter confiado naquele homem, mas ele era tão lindo. E o homem mais lindo era o adorno perfeito para a mais bela mulher da cidade. As mulheres, com certeza a invejavam, quando ela desfilava com ele a tiracolo. Certamente, não mais invejariam, agora. Sentiu alguma pitada de vergonha. Não conteria mais o choro, neste momento não houvesse percebido que, enquanto parecia estar invisível a todos os presentes, um rapaz encostado na porta do quarto a observava.
     Como ele era feio! Causava-lhe asco somente a visão daquele arremedo de homem, que não tirava os olhos dela. Com um sutil gesto, como se pudessem ser vistos por mais alguém, ele a chamou para si. Não podendo recorrer a mais ninguém, ela resistiu a seu nojo, e andou em sua direção. Pensava todo o tipo de interjeições, ao olhar aquele rosto estranho.
     - Você, por acaso, já se viu no espelho, para estar me julgando assim?
     Ela ficou estatelada. Ele lera seus pensamentos? Ou será que sua expressão de nojo era tão clara, que transparecia seus pensamentos?
     - O que?
     - Quer sua vidinha tola de volta?
     Ela ficou séria. Parecia uma espécie de brincadeira de mal gosto. Mas ele permanecia sério, diante dela.
     - Você pode fazer isso?
     - Ainda está em tempo de reverter tudo.
     - VOCÊ - e destacou cada sílaba de sua frase - pode fazer isso?
     - Se VOCÊ fizer um trato comigo.
     - Qualquer coisa!
     - Tenha calma. Vou fazer de conta que não ouvi. Não se comprometa antes de saber o preço do que almeja...
     - Como assim? - ela estava, mesmo, intrigada.
     - Você faria, mesmo, qualquer coisa pela sua vida?
     - Qualquer coisa! - ela insistia em responder sem pestanejar.
     - Namore-me. E este compromisso deverá ser publicamente assumido. Você é uma pessoa pública, quero que convoque a imprensa, e cada revista de fofoca para me exibir como seu novo parceiro.
     Já entre as primeiras palavras, ela assumira, novamente, a expressão de total rejeição. Mas encararia. Mas, a idéia de assumir publicamente um relacionamento com uma coisa tão feia. Ela viraria piada pública.
     - Deus me livre! Jamais!
     - Ele livraria! Se você aceitasse, claro! Mas, você disse o que eu queria ouvir.
     Como num passe de mágica, ele se transformou no homem mais belo que ela já vira. Algo de familiar... Era ele! Ele a matara!
     - Você selou o seu destino. Somente sairá daqui, quando entender o real sentido da palavra beleza! Cuide-se!
     Antes que ela pudesse respirar, percebeu que estava numa sala enorme. Havia espelhos em cada parede, havia espelhos em cada coluna. Uma verdadeira academia, uma penteadeira, inúmeros produtos de beleza e equipamentos afins. E espelhos. Muitos espelhos. Ela via que era ela, em cada espelho. Mas cada espelho mostrava uma face diferente, como estivesse diante de espelhos que a distorcessem. Mas não a distorciam, não, e ela entendeu isso. Era ela, mesma, como ela realmente era.
     É que, a cada espelho, ela via um defeito seu. Não espinhas, verrugas, rugas, pés-de-galinha... Não. Via sua soberba, sua empáfia, sua inveja, sua desonestidade. O maior dos espelhos, sua vaidade, mãe de cada um de seus defeitos.
     No fundo, sabia que, se, um dia, conseguisse ver a mulher por trás daquele monstro horrendo que cada espelho abrigava, se abriria alguma passagem para onde ela pudesse ter paz, finalmente. Mas, por um bom tempo, ela estava aprisionada pelo mais terrível dos monstros: ela mesma.

Pablo de Araújo Gomes, 20 de janeiro de 2010