sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mário e Leandra

     Mário e Leandra não eram um casal comum.
     Na verdade, nada neles era comum. Para começar, eles curtiam swing. Swing, vocês sabem, aquela parada de misturar os casais, ou de fazer ménage a trois, e por aí vai. Mas, nem segundo este padrão, eram um casal comum: não faziam distinção alguma entre homens e mulheres, casais homo e hétero, e, principalmente, não respeitavam quem não quisesse participar ou ceder seu parceiro para as suas "festinhas".
     Entre eles, as coisas costumavam ir bem. Sua maior regra era não ter regra alguma, e, por incrível que pareça, isso vinha funcionando.
     Tá, eu reconheço. Deve ser interessante poder cantar quem quiser, quando quiser, a qualquer momento, sem temer o fim do relacionamento. Mas, eu sempre lhes dizia, algum dia, isso há de causar problemas! E foi o que aconteceu.
     Não, não foi mau augúrio de minha parte, não. De forma alguma! Mas que eu avisava, ah, isso sim! Creia você, caro leitor, que, certa feita, ela o encarregou de cantar um negão, seu vizinho. Ele, claro, por muito pouco escapou de uma boa surra. Na verdade, o indivíduo, que era grande a ponto de quase ser dois, gostou tanto de Leandra, que se satisfez em dar em Mário alguns sopapos. Ah, claro, deixou-o de fora da brincadeira. Leandra não viu maior problema com isso, mas Mário pareceu não estar muito satisfeito, ali, parado, sem querer ver.
     Acho, mesmo, que foi por isso que resolveram parar com esta estória de swing. Resolveram, mas não pararam. Eu diria que estão, por assim dizer, mais convencionais. Pelo menos, mais do que antes. Ela, agora, faz as aproximações. Mário, descobriu-se, depois, ficou paraplégico, por conta dos sopapos, e não sente mais prazer além do de ver. Mas ele continua escolhendo parceiros, claro. E tem uma grande aposta num tratamento com células-tronco que acaba de iniciar.
     Espera-se que possamos voltar a vê-los (e, eventualmente, sermos abordados por eles) em algo como cinco ou seis anos. Coisas da vida.

Pablo de Araújo Gomes, 19 de junho de 2009