terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Não foi dessa vez

     Após muito esforço e sacrifícios consideráveis (e, talvez, um pouco de superestima dos efeitos desse esforço), a cara ao muro. Não foi dessa vez, é o que parece.

     Mas, "dessa vez"?
     Há espaço para outras vezes? A vida urge, e parece gritar tão alto que me apresse, que me doem os tímpanos. Esperança, persistência, boa vontade, tudo isso que fique para depois! O que eu queria, agora, é que tudo isso se explodisse, e só sobrasse o sucesso que tanto almejo.
     Não, não tenho problemas como fracasso. Não gosto, claro, como não conheço quem dele goste. Mas, afinal, não é o fracasso, por si só o que me incomoda. É que há coisas, em certas ocasiões, que, em hipótese alguma, admitem um fracasso tão retumbante!
     Não foi dessa vez, fica para a próxima.
     Foda-se, caralho! Ao inferno com a espera pela próxima chance! E fico procurando argumento para justificar uma esperança que nem mesmo sei se ainda tenho. E não é só pela derrota que sobre mim se abateu, mas pela certeza da vitória que eu tinha, com tanta segurança de estar no rumo certo, em cada uma das últimas batalhas. Não é só pelo fracasso que agora estou abatido, mas pela urgência de viver, porque a vida não está me esperando, o tempo não me está esperando, as necessidades, os deveres, responsabilidades, pressão, estratégias erradas por mim assumidas no passado, tudo, tudo o que faz com que eu esteja aqui, agora, neste estágio da minha vida, estagnado, preso, lacrado, dolorido, insone, louco para chorar um choro que se recusa a sair, solitário, sem um ombro próximo em que me possa fiar par aum bom desabafo, por isso e muito mais, não posso fracassar. Não posso mais depender de ninguém, não tenho mais idade, não me sinto confortável, mas, sobretudo, ninguém de quem eu possa depender está apto a me auxiliar.
     Sinto-me só. Inúmeros nomes me vêm à mente, pessoas legais, amigos verdadeiros, sinceros. Mas não quero consolo. Basta de ser consolado! Basta de estar conformado! Não me permito mais! Preciso de ação! Preciso andar, sair do chão, preciso viver, transcender, alcançar. Não me basta mais pensar que um dia eu chego lá. Chega das algemas da esperança no futuro!
     Andei tanto para frente, e não fui a lugar nenhum.
     Sempre ouvia dizerem que estava no caminho certo. Me recuso a aceitar que tenha me desviado tanto, a ponto de não poder  mais progredir. Para que lado, então, devo reajustar a jornada? Para onde devo seguir? Não! Talvez, tenha demorado demais para tomar as rédeas da besta que cavalgo, e, agora, enfim, não mais há rédeas que eu possa segurar. Talvez eu vague sem rumo, e há muito tempo. Talvez, a besta, ou melhor, o besta, seja eu mesmo.
     Quisera poder pôr fim a tudo, não para não mais lutar, mas para recomeçar do zero. Um reinício verdadeiro, não como meus últimos reinícios, repletos de cicatrizes. Na verdade, repletos de feridas abertas. Foram recomeços em que não comecei do começo, com certeza. Chega de dar meu sangue como o jogasse  ao mar! Já estou cercado de tubarões, mas me recuso a aceitar o game over. Eu fiz a aposta errada. Ou será que joguei mal? O negócio é que estou encurralado, o tempo está acabando, os tetos e as paredes estão se fechando, me imprensando, me esmagando, e nenhuma esperança parece ser grande o bastante que me faça sentir que é possível sonhar.
     Exagerado? Talvez. Mas é como eu me sinto, sem cortes ou censura.
     "Mas você é tão novo", muitos dirão, "ainda tem pela frente tanto chão!". Sim, muito chão. Mas estou cansado de ir carregado, muitas vezes por caminhos que não gostaria de seguir. Queria ir pelas minhas pernas, mesmo que sobre meus joelhos feridos de se arrastar no asfalto. E não. Não tão novo, apesar da idade. Sempre me apontaram como menino precoce, e eu até gostava disso, quando era novo. Hoje, carrego o fardo de ser tão novo e imaturo, sobretudo, para ser tão precocemente velho para minha idade. Não sou novo, só tenho pouco tempo de uso. Mas estou desgastado, não posso mais esperar. O fracasso não é uma opção.
     Engulo o choro, para ninguém mais possa ver. Isso dá câncer, dizem. Mas o meu câncer é o inexpurgável tempo, inseparável tempo, que me fustiga e mostra que não terei sempre o lar de meus pais, como um amortecedor para minha queda. No presente momento, já não dá conta de ser suporte para minha caminhada, menos ainda para minhas conquistas.
     Estou saturado. Não que a luta, o trabalho, ou os estudos, ou qualquer maneira de buscar meus sonhos seja algo negativo, ou cansativo por si. Faria-os a vida inteira, incansavelmente, se sentisse que não o fazia à toa. Não se pode vencer todas as batalhas, mas perder cada qual, seguidamente, sem uma tímida conquista para entremear as derrotas, parece-me como dar viagem perdida.
     Acredito que se deve caminhar com um objetivo em vista, mas não por ele, e sim pelo próprio prazer da caminhada. Se não, o que será do caminhante, quando alcançar o objetivo? Ou quando este se lhe fizer impossível? Perderá o sentido da vida, ao certo, pelo menos até que consiga traçar um novo objetivo. Mas, e se não houver, também, o prazer? E se o objetivo começa a embaçar quando a caminhada mais lhe desagrada?
     Pior, e quando tudo e todos, mesmo quando não têm intenção, ou quando não percebem, insistem em te lembrar, a todo tempo, de seu retumbante fracasso?
     E fracasso não é perder tudo. Fracasso é ver o tempo passar, e continuar a não ter nada a perder. Também não é uma vitória ter um piano de cauda e morar num barraco de papelão. O barraco é frágil. Se chover, adeus piano. Se você sair para lutar por uma casa melhor, há grandes chances de não encontrar o piano quando voltar. Mas, se não sair de junto do piano, se você sentir fome, ou se ele ficar desafinado, com que dinheiro comer, ou pagar para se lhe afinar?
     Em outras palavras, ainda não foi dessa vez.
     É por isso que eu queria aprender a andar, depender apenas das minhas pernas, a brigar com as minhas mãos, abrigar com o meu corpo, a suar com a minha pele. Sei que nenhum homem é uma ilha, que ninguém vive isolado ou sozinho. Mas sei que quem conta com os outros se descobre sozinho quando mais precisa.
     Afinal de contas, maldigo o destino, se é ele quem determina minha vida. Maldigo a minha fraqueza (a principal suspeita), se tudo é fruto de má gestão da minha vida. Mas, para conseguir, tenho que esquecer do passado e do presente, e tentar.
     Só o que ainda não sei é como conseguir tentar uma outra vez.

Pablo de Araújo Gomes, 21 de dezembro de 2009