sexta-feira, 15 de junho de 2007

A Cueca

"Aaaah! Credo!! O doutor Henrique tá só de cueca pela casa!!", grita a dona Severina, sua empregada doméstica, também chamada de secretária do lar, apesar de não gostar de atender telefonemas.
  "Mas o que há de errado com a cueca? Se quiser, eu tiro...", responde seu Henrique, com um gesto seguro de quem vai tirar, a que ela interrompe: "Deus me livre! Não, sinhor, doutor Henrique! Não quero ver mais do que já vi! Ai, Jesus Cristinho, me tira esse homem só de cuecas daqui da minha frente... Seu Henrique, eu sou uma mulher cristã, evangélica, não posso ver homem de cueca por aí, não..."
"Mas o problema é a cueca, dona Severina?
Mas não é a senhora quem lava minhas cuecas?", ele pensa um instante, "Ou não é a senhora quem lava minhas cuecas?"
"Não, sinhor, sinhor Hen... não! Quero dizer, sim, sinhor, doutor Henrique, sou eu, sim, quem lava suas cuecas, há dois meses, sim, sinhor, mas..."
"Mas o quê, dona Severina? Então o problema não é a cueca?"
"Não, doutor Henrique, o problema não é a cueca, mas o sinhor de cueca..."
"Ai, meu deus, quem entende vocês, mulheres? Vivem implicando com os homens que andam sempre sem cuecas..."
"Não é isso, não, sinhor. O problema é o sinhor SÓ de cueca", diz Severina ainda de costas, e, como desde o princípio, cobrindo o rosto.
"Ai, ai, meu Deus!" O senhor Henrique pára, pensa por um segundo, e pergunta: "então?"
Por uma fração de segundos, dona Severina olha para o seu patrão. "Ai, Jesus Poderoso! Sangue de Cristo tem poder! O sinhor ainda tá aí só de cuecas?"
"Cueca, dona Severina. Uma só! E a senhora acha que deu tempo de eu sair daqui, afinal?"
"Não, é que..."
"Dona Severina, a senhora já viu que temos uma piscina lá fora?"
"Claro que sim, Doutor! É uma piscina muito grande até prum cego não ver!" ela hesita por um instante. "Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?"
"Como é que eu vou para a piscina?"
"De roupão, sinhor!"
"Entro na piscina de roupão?"
"Claro que não, doutor! O sinhor usa sunga!"
"Então, devo me esconder quando estiver de sunga, também?"
"Não, sinhor, doutor. Claro que não...!"
"E qual a diferença?"
"Ah, doutor! Sei, não! O sinhor me deixa trabalhar, que eu tenho muito serviço pra fazer, e se quiser andar por aí todo nu, ande. Só não espere que eu vá olhar pro sinhor. E não vou ter cara de olhar pra sua senhora, também. Ai, meu Deus, se o pastor fica sabendo que eu vi um homem casado só de cueCA, eu sou excomungada!"
"Excomungada? A senhora não é evangélica?"
"Esquece, seu Henrique, deixa eu trabalhar!"
Semanas depois, Seu Henrique foi à casa do caseiro. Precisava de sua ajuda para fazer uns acertos na casinha da piscina. Acostumado com o caseiro, que trabalhava com sua família desde antes mesmo dele nascer, já foi entrando, sem bater na porta, e viu o mais improvável.
Lá dentro estavam um senhor ainda vistoso, mas com seus sessenta e poucos anos – o próprio caseiro – e um morenão alto e forte – o segurança da casa – sentados de braços dados na sala, sentados no sofá, só de cueCAS.
Mas isso não é, na verdade, o mais improvável. O doutor Henrique sabia que era a folga do segurança, e ouvira falar de seu caso com o caseiro. Ficou surpreso em ver a Dona Severina sobre a mesinha de centro da sala, fazendo strip tease, só de calcinha e sutiã, rebolando com o manejo de quem tem sabe o que faz.
"O que é que está havendo, aqui?" perguntou pasmo o doutor Henrique, surpreso com a cena.
"Sabe o que é, doutor?", responde Severina se cobrindo com os pequenos trapos que acabara de tirar, "É que eles... nós fomos à praia juntos, ontem... as roupas de banho... ehhh..."

Seu Henrique jurou por tudo que nunca na vida permitiria que Dona Severina o acompanhasse e à sua família, quando fossem praticar naturismo.








Pablo de Araújo Gomes, 15 de junho de 2007