domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Escritor

Era rapaz, ainda, e já tinha reconhecido seu talento. Das entusiasmadas professoras de redação e literatura aos colegas escritores, todos nele identificavam uma capacidade extraordinária no manejo das palavras. Ora, o reconhecimento era merecido! Pelo menos, em grande parte, já que seu talento era fato.

Mas, fã de frases de efeito, e dotado de um vocabulário vastíssimo, obtido em suas intermináveis leituras de tantos livros de tantos autores de tantos estilos de tantas origens, mundo afora, tinha o defeito de enfeitar demais.

"E seguia o incauto beócio, ignorando que o opúsculo que, obstinado, perseverava espargir, aquinhoava aos borbotões os valores que lhe assolapavam prematuramente seu próprio sepulcro."

Aqueles que liam, dificilmente, passavam sem consultar dicionários, buscar significados na internet, ou de qualquer forma consultar o verdadeiro significado de tais palavras.

Os que, de imediato ou após pesquisa, compreendiam o sentido de suas palavras, frequentemente se impressionavam com tão culto escritor. Os que não compreendiam, com ou sem pesquisa, tanto admiravam quanto desenvolviam estranha adoração pela sua prolixa maneira de expressão.

E seguia escrevendo o jovem escritor.

"Era um belo espécime de varoa, aquela impúbere petiz. Dissemelhantemente, contudo, parecia aquilatar-se. Malsinava-lhe sua própria conduta, aluída e oscilante, ao passo que, bem apregoada por qualquer tratante mercador, de tal anúncio dimanaria demanda capaz de se lhe atestar veramente valiosa..."

É notório, no entanto, que seus textos eram cansativos. Tal como recebia os elogios com excessiva e falsa modéstia, fingia se aprazer das críticas negativas que poucos ousavam lhe oferecer, como que a demonstrar desapego e uma boa receptividade que jamais tivera. Mandava às favas as críticas, internamente, e ao diabo que os carregassem os críticos. Essa era a verdade que jamais ousava admitir, nem mesmo para si.

"Ufano se afigurava, explícito, notório. Cediço era, no entanto, que, por dentro, em nada passava de um verme liliputiano."

E foi premiado, o escritor. Publicou em toda parte sua obra. Os amigos que lhe estimavam perderam espaço em sua rotina. Os companheiros de projetos comuns rapidamente se tornaram muito abaixo daqueles com que ele, na condição de escritor reconhecido, se dignaria a compartilhar realizações. Abandonou-os, também. Por mais que negasse gostar, tinha o mundo literário a lamber-lhe os pés, e salivar-lhe as gônadas.

Agora, fazia pouco dos autores renomados. Em vez de agregar, enriquecer, assomar, fazia valer sua superioridade, em desprezo flagrante pelo público leitor de autores que considerava inferiores, em nível e qualidade. Tanto superara a todos, que, agora, seu desafio era superar-se a si.

"No calor de tamanha altercação, aparte à parte, a parte a que a parte o coração é a parte a partir da qual ele parte para não mais voltar".

E os leitores se deliciavam com tamanha habilidade com as palavras, embora grande parcela tenha sido incapaz de compreender sem ajuda dos estudiosos que o escritor tanto desprezava.

Mas, o escritor não viveria para sempre em sua juventude. O tempo vem a galope, e é para todos! O escritor envelheceu. O escritor fez escola, e vendeu milhões. Defendeu que seu estilo é o único correto, o único bom, embora sempre por meio das palavras de outrem, para não evidenciar sua própria empáfia. É feio elogiar-se a si, mas, há sempre quem queira fazê-lo por si, quando o elogio já foi feito antes.

Sim, o escritor envelheceu. E sua saúde já não é mais a mesma. Sobre a cama, envelhecido, ensimesmado, chora o escritor, sem permitir que o percebam. Tem a mente ativa, mas, não tem mais saúde para dar vida a suas ideias. Romances já não saem de sua mente para o papel, e contos já não caem sobre as teclas de sua velha máquina de datilografar.

Suas últimas palavras, a custo pronunciadas, jamais serão decifradas. Os presentes ouvem "eu sou uma fraude, uma farsa!", mas, é claro que jamais ele o seria, jamais ele o diria. Insistem em crer que as palavras veramente pronunciadas eram daquelas que ele escrevia, que não foram reconhecidas porque não eram conhecidas. Ah, essa mente que nós temos! Mente-nos, para preencher os buracos. E era o que melhor sabia fazer o escritor. Ou não.

Pablo de Araújo Gomes, 22 de fevereiro de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Só para garantir (ou O Tarado do Riacho)

Manhã de sol, bom dia para uma boa caminhada. Francisco pôs suas roupas leves, calçou o tênis, e saiu.

Chico morava num sítio modesto, e vivia do que produzia. Já havia ordenhado as cabras, e tomou seu leite no belo café da manhã que sua irmã pusera à mesa. Já coletara os ovos, que também estiveram em seu prato. Havia cumprido cada mínimo afazer de sua rotina, e não era época de roça.

Foi para o mato, como gostava de dizer. Na verdade, estava seguindo rumo a uma pequena mata, que a família preservara do desmatamento. Lá, ainda podia ver alguns animais silvestres, livres, belos, saudáveis. Poderia tomar um banho de riacho, como sempre tomava, desde menino.

Ia pensando na alegria que era poder se banhar num riacho ainda preservado, de água límpida. Sabia que, mais à frente, aquela água ficava tão suja, tão poluída. Era triste pensar nisso. Preferia pensar na delícia do banho! Sem falar em algumas memórias inesquecíveis.

Sim, fora ali naquele riacho, em um de seus banhos inesquecíveis, que conhecera Júlia. Ah! Julinha... Não podia imaginar sua vida sem aquele dia em que avistou Julinha, a se banhar completamente desprevenida. Sim, desprovida mesmo das roupas íntimas. Como era bela, sua Julinha!

Lembrava ver as peças de roupa de Julinha jogadas a esmo, nos últimos metros da mata, antes de se aproximar do leito. Lembrava de a ter avistado, e observado escondido, de longe. Fê-lo, e o fazia regularmente, desde então, até que notou que ela não estava incauta. Verdade, Julinha dissimulava sua ignorância para não ter que mandar Chico embora.

Em verdade, suspeitava, mesmo, que Julinha lhe fizera notar quando quisera que percebesse, e ele, no fundo, nada descobriu sem seu ardil. Como era danada a Julinha! Morena matreira, menina virada! Moleca toda! Seus banhos logo passaram a ser acompanhados, ambos despidos, Chico e Julinha.

Eram banhos cheios de brincadeiras que beiravam o ingênuo. Mas, é óbvio que havia toda sorte de intenções libidinosas, de ambos os infantes. Por anos a fio brincaram, a brincadeira de crianças e a brincadeira proibida dos adultos. Foi com ela que ele descobriu os prazeres da carne. Lembrava-se. Tinham apenas treze anos, ele, e catorze, ela.

Riu-se com algum desprazer, quando lembrou o escândalo que aconteceu quando foram descobertos. Eram primos, não podiam. Levaram Julinha para longe, para morar com uma tia comum, na cidade. Nunca mais a vira por ali, depois de tantos anos, e sua presença na cidade era motivo para toda cautela dos familiares, que não lhes deixavam se encontrar. "Não se acende fogueira em relva seca", dizia sua tia, para justificar a proibição, "termina em queimada, e se perde o controle", completava o tio.

Absorto em seus devaneios, Chico já ouvia o marulho contínuo da suave correnteza contra as pedras do riacho, quando quase deixou de perceber uma blusa feminina, caída no chão. Não podia ser. Ou seria? Era coincidência, ou era sua Julinha?

Sentiu seu coração palpitar quando, em seguida, encontrou um sutiã. Fazia tanto tempo, e ainda assim os calores lhe tomavam o corpo com uma intensidade assustadora. Antes que avistasse uma bermuda feminina, mais à frente, já estava armada a tenda, abaixo da sua cintura.

Não tinha como não ser ela. Ele sabia que não. Estava tudo jogado do jeito que ele sempre encontrara: displicentemente despejadas as peças, conforme a ordem com que delas ela se desfazia. Não pensou mais, tinha que fazer uma entrada triunfal. Seu trunfo já estava palpitante, só precisava descobri-lo. Arrancou de si a blusa, e, da calça, soltou o botão e abriu a braguilha, deixando-a cair.

Acelerou o passo, enquanto quase caía para remover a cueca e jogá-la ao lado da calcinha caída ao chão. Chegaria no ponto certo. Nem notou onde deixara as percatas. Estava pronto, sentia-se lindo e na melhor forma. Ela iria se impressionar. Não esperou mais nada, não procurou brechar por entre a mata. Apareceu, mesmo, e de supetão.

"Julinha, meu amor! Quanta saudade! Estou pronto para! Cadê você?"

Enquanto ele saía da mata, olhava em volta, procurando por ela nadando. Mas, quando ultrapassou a barreira de troncos e de arbustos que ladeavam o leito do riacho, deparou-se com um grupo de lavadeiras, separando as roupas que seriam lavadas. Liderando as lavadeiras, sua tia Nadinalva, a mãe de Julinha. Na comitiva, a sua própria mãe, duas primas menos formosas que sua Fernanda e três irmãs mais velhas.

"Ah! Desgraçaaado!!!" Foi só o que ouviu. Sua mãe, irmã e primas atiraram-lhe roupas, e a tia Nadinalva, cutucada na ferida que jamais sarava, seguiu-lhe catando seixos sob os pés e atirando-lhes com força. Um ainda acertou as costas de Chico, que já havia disparado como um calango dando bote em muriçoca, e lhe doeria por anos. "Volte aqui, seu tarado descarado!! Violador de moças de família! Volte aqui se é homem, e encare uma mulher de verdade, seu cabra safado!!", vociferava sua tia, a cada pedra que atirava.

De volta em casa, ainda como viera ao mundo, Francisco se deparou com seu pai, um senhor religioso e apegado às tradições, recebendo a visita do cônego e beatas da vila, que planejavam um evento em honra à Maria da Conceição, para o mês seguinte.

"O que é que está acontecendo aqui?!?!", enfureceu-se o Seu Geraldo. Mas, é claro que a pergunta era retórica. Ele não esperava que Chico parasse para responder. E Chico não ousava. Pensou em voltar e correr para se esconder no galinheiro ou no estábulo, mas, certamente, isso passaria a mensagem errada.

Atravessou pelo meio da comitiva religiosa, para entrar no seu quarto, mais à frente, e, quando se virou de lado para passar pelo clérigo, teve quase certeza que acertara algo indevido na mão do líder religioso. Não tinha tempo de se envergonhar mais, nem mesmo do olhar interessado da Irmã Dulce. Com o lenço encarnado, que devia lhe identificar como beata, a irmã atirou-lhe um olhar lascivo que foi mais constrangedor do que tudo, e Chico, chocado, fez que não viu.

A bem da verdade, boa parte das coisas se acertaram, depois. Seu Geraldo fez saber publicamente que punira severamente o filho, mas, na verdade, quando soube que ele fizera o que fizera porque era homem, o perdoou e riu com ele da situação. "Só nunca mais me faça uma cena daquelas com o cônego e as beatas! A velha Dulce nunca mais vai querer rezar um Pai Nosso, se o "Pade Ciço" não tiver o tamanho do seu!", riu do interesse da viúva no filho. E, no mais, era isso mesmo. Os outros que mantivessem amarradas suas cabritas, porque seu bode estava solto e na ativa!

A mãe, por sua vez, suspeitou da cumplicidade dos dois, porque homem que é homem nunca consegue esconder nada de mulher nenhuma. Obrigou o filho a se desculpar de todas as mulheres que o viram no riacho (não chegou a saber do incidente em casa, o que certamente lhe poupou de um enfarte).

As primas, por falar nisso, nunca mais o olharam com os mesmos olhos. Agora, era de soslaio que lhe viam, proibidas de interagir com ele, mas, sempre fantasiando encontrá-lo às escondidas, como Fernanda. Às vezes, ao lembrar de Chico, era um suspirar coletivo, e, sempre que podiam, arranjavam roupas para lavar no riacho. Inútil, pois o primo estava terminantemente proibido de sair de onde sua mãe o pudesse ver. Nada, sequer, de adentrar na mata! Recomendação especial às meninas: "Cuidado pr'as roupas não caírem mais do balaio! Amarra esse troço direito!".

Já a tia, coitada. Passada a raiva, teve um passamento, e caiu com todos os seus quase cem quilos, compactados num corpo que não denunciava tanto peso. Nunca mais perdoaria o sobrinho, nem a filha, coitada, que nada sabia, mas, enfrentou a ira de cada parente que apareceu para lhe dar um rela daqueles! E olhe que foram muitos, que apareceram somente para lhe arrancar o couro, e só aos poucos ela pôde juntar as peças do quebra-cabeças e entender um pouco do que se passava.

No fundo, a julgar pela declaração que ele fez, ao surgir da mata ("estou pronto pra você, Julinha", e coisa e tal), todas, eram capazes de jurar de pé junto que Chico e Julinha ainda andavam se encontrando às escondidas. Como ela faria para vir da cidade, não se sabia. Mandaram-na para a capital, por via das dúvidas, a quase um dia de viagem, só para garantir.


Pablo de Araújo Gomes, 20 de fevereiro de 2015

domingo, 24 de novembro de 2013

Contraditório

Ele é filho de um escocês ruivo, alto e forte com uma negra mignon de pequenas proporções olhos grandes, refugiada da guerra na Angola. John McCoy dos Santos nasceu no Brasil, fruto genuíno de uma boa noitada, composta por um grande show de rock e um passeio na praia de Copacabana, mas não gosta mais de rock. Nem de praia. Formou-se em Direito pela USP, mas não advogou por muito tempo, porque não podia entrar no fórum de saiote. Ele alegava ser metade escocês, mas os juízes e serventuários sempre lembravam-no que o judiciário é cem por cento brasileiro. Não adiantava insistir, e ele só queria mesmo um motivo para largar o Direito. Em seguida, largou o saiote.
Ele é o retrato da contradição. Nos ombros, tatuagens de caveiras pegando fogo contam sobre uma juventude sobre duas rodas, nas estradas do país; no pescoço um coração  circunscrito com as iniciais "L&M" fala daquela por quem subiu sobre as duas rodas, e por conta da qual posteriormente abandonou a estrada, correndo risco de vida. A cara mais escura do que o corpo, manchada de ter sido repetidas vezes queimada pelo sol, a cabeça calva de poucos cabelos, cortados muito pequenos, e um rabo de cavalo (ou seria de porco?) enrolando-se por detrás da cabeça.
Braceletes em cada punho, tentam esconder muito mal símbolos como a caveira pirata e uma suástica. Ele, claro, nada ariano (se é que tal coisa realmente existe), se enchera de símbolos cujo significado desconhecia, em sua juventude rebelde, somente com a intenção de chocar. Mas, a despeito de sua louca aparência, ele se tornou um homem de bem, quando decidiu se tornar um homem.
Verdade, quando jovem, ele gostava muito de chocar, de sacudir as regras e subvertê-las. Isso é passado. Hoje, ele mudou bastante. Mas, continua diferentão. Está muito zen, e não quer mais chocar. Regularmente, cobre-se de humildes vestes orientais, e se entrega à meditação e aos mantras. Chocante, do mesmo jeito, pois saltam por debaixo de sua indumentária todo o mosaico de marcas permanentes produzidas durante sua adolescência.
Ele vinha exatamente assim, vestido semelhantemente a um monge, e entrou em seu escritório. Ah! Quase esquecera de dizer que ele é alto executivo de uma grande multinacional.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Desabafo

Começa no domingo.

Quando o crepúsculo ameaça o dia, o primeiro arranhão fere o coração como uma garra cravada no peito. O pôr-do-sol termina de rasgar, o corpo curva, o humor recrudesce uma miríade de pequenos desconfortos e inconformações. Tudo parece ruim. A voz do apresentador dominical na televisão, seguida do jornal de domingo à noite são duros golpes, e extraem algumas lágrimas. Desliga-se a televisão. Mas, o relógio é cruel. As horas insistem em passar rapidamente, e não há distração que me retire deste estado de ansiedade. Cada hora parece preceder a minha própria execução.

Mas, a hora de dormir é inevitável. Deitar e rolar nunca pareceu algo tão penoso. O sono não vem. As horas passam do galope ao trote, como se o tempo quisesse parar. Horas se passam após a meia-noite, até que o sono seja autorizado a pousar sobre um corpo cansado pela inquieta mente.

Amanhece. Segunda-feira, agora é oficial. O despertador toca dezenas de vezes, mas estou desperto desde a primeira ou a segunda. Recuso-me a acordar. Recuso-me a levantar. Não, eu, na verdade. Meu corpo não responde. Uma angústia pesada espreme meu estômago, e comer qualquer coisa é penoso. Terminar o café da manhã enjoado é uma certeza. Mas, é inevitável. O banho parece se recusar a começar, e não termina sem a água fria do chuveiro ter se misturado a gotas quentes e salgadas de um pranto travado e insuportavelmente doloroso. Recomposto, visto-me o mais rápido possível. De outra forma, desistiria de fazê-lo. Demoro mais do que o usual tentando lembrar de tudo o que preciso levar, apesar de tudo já estar previamente disposto em um só lugar, na tentativa de nada esquecer. Saio com a sensação de carregar uma geladeira nas costas. Assim começa o meu dia, de segunda a sexta-feira.

Se tenho comigo a minha filha, responsabilidade maior, e não há tempo de fazer pausas ou demoras, levanto cedo, preparo-a no ritmo dela (ritmo que precisa de bons empurrões, quase sempre), e a levo para a escola. Nesse momento, toda a ansiedade que já me vem acompanhando desde o despertar cai sobre mim como um piano atirado do alto de um edifício.

Chego ao ambiente de trabalho. A certeza de um dia desagradável me causa taquicardia e asia. Caminho rumo a minha sala como um boi que sabe que vai ao matadouro. No caminho, encontro pessoas, de quem não consigo esconder todo o meu desespero. Declaro que não quero esconder, como uma maneira de perdoar-me, eu mesmo, por minha indiscrição, mas oculto as maiores dores, e sigo para o meu local de trabalho, torcendo para não encontrar mais ninguém. Vez ou outra, meu trabalho começa nesse ínterim, abordado por colegas que dependem de uma carimbada minha ou de meu setor, e cujo caso não recordo o suficiente para explanar.

Gosto de chegar simpaticamente, sorrindo para todos, e fazer do meu início de dia uma promessa de bons tempos. Gosto de cumprimentar alegremente a todos os colegas, distribuindo cumprimentos, abraços ou beijinhos. Esqueça. Não, mais. Não consigo. Além do que, parte da equipe já é causadora de tanto desconforto, e falsidade jamais foi o meu forte.

Durante o dia, recebo inúmeras prioridades, nada é postergável por mais de um dia, quando o é por mais de um turno. Mas, mesmo quando algo é considerado prioritário pela chefia, tal prioridade é prejudicada pelas constantes interrupções, inclusive de quem a julgou tão importante. Tudo o mais, na medida em que chega, é mais importante, naquele momento. Tudo o mais, especialmente as dezenas de pequenas providências pontuais, precisa ser feito imediatamente. Mesmo aquelas que, se tratadas de maneira mais sistemática com um procedimento simples e mais efetivo, seriam dispensáveis, ou significativamente reduzidas. Não importa. O saldo é um sem-fim de ações pela metade, de difícil retomada, refletindo em uma desordem absoluta de papéis sobre a mesa. O telefone não para de tocar, e eventualmente eu recebo a ordem ou decido não atender telefonemas, para tentar concluir alguma atividade até o fim. Normalmente, não vinga. A esta altura, já tenho dor de cabeça. Uma dor de cabeça mágica, diária, que me deixa logo após o fim do expediente, e é substituída por um sono irresistível.

Ponho uma música no ouvido, para distrair. Por educação, em um dos ouvidos. Às vezes, em ambos, que é a única maneira de concentrar no trabalho. Talvez, às vezes, não seja questão de ouvir a música, mas de não ouvir o inferno de vozes e toques de telefones que me rodeia. Exceto pelos toques de telefone, normalmente todo o ruído não me incomodaria, em circunstâncias normais, mas a minha concentração está completamente minada. Não é possível manter a concentração em uma só atividade por mais de três, cinco minutos, e esse nível de dispersão muito me incomoda. De tempos em tempos, percebo-me alheio, a música tocando à toa nos fones depositados sobre a mesa, as mãos sobre o teclado e o olhar perdido em lugar algum.

De tempos em tempos, surge uma série de demandas para resposta imediata, que adiciona doses cavalares de adrenalina em minhas veias. Não raro, vou almoçar agitado, eventualmente recebendo algum e-mail cobrando "cadê você?", como se não tivesse direito às minhas horas de almoço.

Aliás, há uma preocupação obcecada de meus colegas (às vezes, da chefia, mas mais dos colegas) com o meu horárío. Não há muitos que se preocupavam quando eu almoçava meia-hora em vez de duas, ou que se importassem quando eu ficava até quase meia-noite, trabalhando. Não havia muitos que se preocupassem quando eu trabalhei, em média, duas a quatro horas a mais de que as que deveria. Mas, muito lhes incomodou (não a todos, mas à maioria) que eu tenha feito uso do direito que a lei confere ao servidor estudante, de ter o horário especial, compensando as horas posteriormente. As horas eram devidamente trabalhadas, mas muitos pegaram no meu pé por estar em horário diferenciado (apesar de ser direito, e não luxo). Alguns são obcecados, até hoje, com as minhas horas, parecendo esquecer da própria vida.

Por isso, decidi não mais fazer hora extra. Estou quase conseguindo. Ultimamente, tenho contado os minutos que faltam para o fim do expediente, e tentado sair exatamente na hora, sempre que possível. Sempre que possível, pelo menos. Saio fugido, porque, se não o fizer, haverá serviço a desempenhar.


sábado, 28 de julho de 2012

O Inferno de Cada Um - III

Só se via um campo seco e arenoso, e um horizonte mais distante do que se esperaria. Tudo lhe dava a mais absoluta certeza de que ela estava só, e não havia nada nada em sua volta capaz de se mover por conta própria, além do vento que insistia em soprar.

Caminhava só, e completamente só seguia sua caminhada, sob um sol forte, alto, intensamente quente, que fazia questão de exibir o longo e deserto descampado que a cercava. Seu vestido inflava-se ao vento quente e seco, que insistia em invadir seus olhos, boca, narinas e orelhas com grãos de uma areia grossa. Silêncio.

Era quente, e no entanto ela sentia frio. Não pelo vento, que parecia torrar sua pele. Nada a confortava. O açoite do vento era sua menor preocupação ou o sol, ou mesmo o seu frio. Afligia-a aquele sangue que escorria por suas mãos, um sangue quente, fresco que não coagulava jamais.

Ela pensava no que poderia tê-la levado àquele lugar, o que a teria posto naquele estado. Ela sabia, mas não podia crer. Há quanto tempo caminhava a esmo? Quanto mais caminharia até encontrar uma viva alma. O sol não se punha nunca, sequer saía do lugar. Sim, ele queria mostrar que ela estava só, tudo a sua volta lhe dizia isso. Estava farta disso, não suportava estar só. Nunca suportara.

Olhou para trás. No chão batido, somente as suas pegadas, acompanhadas, vez ou outra, por um caminho sutil de sangue que não cessava de escorrer por suas mãos. Sentou-se. Não sentia suas mãos. O chão, rijo e seco não lhe dava conforto. Nada lhe dava conforto. Ela estava só.

Olhou seus pulsos, e quis chorar, mas não conseguiu. Feridos, abertos, irremediavelmente cortados. Ela conseguira. Mas, e daí?

Tentava justificar sua atitude: perdera a mãe no parto, mal conhecera o ocupado e ausente pai por toda vida. Foi uma criança só e difícil de lidar. Jovem e bela, casou-se sem amor com qualquer um, para aplacar a solidão, e ele não a suportou. Cedo, viu seus filhos morrerem, seu marido a abandonou sem prévio aviso ou posterior justificativa. Viveu só, desde então, naquela casa enorme, e jamais suportaria aquilo. Sem dinheiro, nem mais pôde manter as criadas. Era solidão além de suas forças. Era dor acima de sua tolerância. Suportara por anos, até não mais poder. Pais, parentes, a sociedade, todos pareciam tê-la condenado à solidão, e ela não nascera para viver sem mais ninguém. Mas não procurara sair da casca em que se enclausurara, antes optara por fechar-se ainda mais. Não poderia ter dado certo. No fundo, sabia que ela era quem afastava todos de si, mas mudar-se a si era mais do que estava disposta a fazer, devia haver algum caminho mais fácil.

Por isso, cortou os pulsos: para pôr fim ao seu sofrimento, para findar sua solidão. Assim, perdeu as forças, pouco a pouco, no meio da sala. Assim, começou a sentir aquele frio, a não sentir suas mãos. Assim, acordara confusa, perdida, sem nada mais ver, além de chão, sem nada mais ouvir além dos próprios passos, que não ousavam ecoar, para não lhe dar o prazer de sentir-se acompanhada. Em seu íntimo, sabia que só lhe restara a solidão. Nada mais.

Por ser só, condenara-se à solidão. Começava a entender que fugir somente a poderia ter afastado, jamais aproximado.

Pablo de Araújo Gomes, julho de 2012